Hoje faz um mês que tive meu último dia de trabalho na Disney, e como o processo seletivo para o próximo ICP já está quase começando, achei que seria legal compartilhar um pouco da minha experiência nesse intercâmbio tão sonhado e tão intenso. Para quem não sabe, universitários brasileiros podem trabalhar na Disney nas férias de fim/início de ano, no programa que chamamos de ICP (International College Program). Eu já escrevi um post falando sobre os pré-requisitos e como funciona o processo seletivo, e aqui vou falar especificamente sobre o meu trabalho durante esses dois meses.

Caso você pretenda participar dos próximos processos seletivos e reste alguma dúvida ou queira saber de algo mais a fundo após ler esse post, pode me deixar um comentário, me mandar um e-mail ou um direct no instagram @blogfoconomundo. Ah, eu criei um perfil no instagram para usar durante o programa, e salvei todos os stories nos destaques @de.castmember.

* Vocês vão reparar que vou usar muitos termos em inglês no meio do texto, mas são termos que usávamos no nosso dia a dia e fica difícil traduzi-los para o português. No fim do post vou deixar um “dicionário” para que todos consigam acompanhar. *

O que eu fazia e como era meu trabalho na Disney

No post que fiz sobre o processo seletivo e os requisitos para trabalhar na Disney eu contei sobre as possibilidades de trabalho que a empresa oferece para o ICP. Dentre todas as opções, eu fui colocada em “Quick Service Food and Beverage”, ou seja, meu trabalho seria com comida nos restaurantes de fast food dos parques ou resorts da Disney.

Também quero aproveitar pra contar que tenho um canal no youtube e tem vlogs de todo o meu ICP saindo semanalmente <3

 

Minha work location: Wilderness Lodge

Mais especificamente, eu trabalhei no restaurante “Roaring Fork” que fica dentro do resort Wilderness Lodge. Eu nunca tinha ouvido falar desse resort antes de receber minha work location, mas foi “amor à primeira vista”. Ele é inspirado nos alojamentos dos parques nacionais americanos, e tem um estilo bem rústico mas também bem chique.  O Wilderness se encaixa na categoria Deluxe, o que significa que é um dos resorts de luxo da Disney.

Além de ser um lugar lindo e do trabalho ser tranquilo, eu tive muita sorte com meus colegas de trabalho e até com meus guests. Além disso, meu resort fica a 5 minutos do Magic Kingdom, e eu amava ir para lá antes do trabalho nos dias que não tinha muito tempo. Ainda conseguia assistir aos fogos do Happilly Ever After no backstage e eu amava. E eu sempre via a Branca de Neve, o Dunga, o Zangado e a Rainha passando por lá, pois eles participam de uma refeição em outro restaurante do resort.

Trabalhar em resort é muito diferente de trabalhar em parque, e daqui a pouco eu vou contar minhas experiências de shifts extras em parques. Eu sei que a maioria das pessoas não quer cair em resort, mas eu garanto que existem muitos pontos positivos (negativos também, mas são poucos).

Como era meu trabalho na Disney

O “meu” restaurante era bem pequeno e na verdade é a junção de um restaurante e um mercadinho, onde as pessoas podiam comprar bebidas e snacks. No restaurante vendíamos vários tipos de hambúrgueres e sanduíches, pizzas, nuggets, waffles, etc. O cardápio do café da manhã era diferente do almoço e jantar, mas como eu sempre trabalhava a noite só tinha contato com o que vendíamos de tarde/noite.

Eu fui treinada para todas as posições do restaurante (menos uma), assim como todos os outros cast members. Todos os locais de trabalho na Disney funcionam com um sistema de rotação, então ao longo do dia você vai exercer diversas funções diferentes, independente da sua role e work location.

trabalho na Disney

As posições de trabalho do meu restaurante eram:

  • CAIXA: atender os guests, lançar os pedidos e lidar com dinheiro. No começo foi muito difícil para mim, pois o cardápio é bem extenso, tinham muitas coisas que eu não fazia ideia do que eram e muitos botões no caixa para decorar. Estava sempre cara a cara com os guests e muitas vezes não entendia o que eles diziam, além de ter que fazer tudo bem rápido para evitar as filas. Com o tempo eu fui pegando o jeito, aprendendo os nomes dos pratos e no fim se tornou uma das posições que eu mais gostava.
  • MARKET: manter o mercado sempre estocado, com bebidas, snacks e itens de confeitaria. Era a posição mais odiada por todo mundo lá, porque tínhamos que carregar muito peso, entrar em freezers, subir na cozinha principal do resort, etc. Mas eu gostava porque era uma posição mais tranquila e sem muita pressão de ter que fazer as coisas muito rápido.
  • KITCHEN: na cozinha eu podia exercer duas das três funções existentes. Uma delas era o que chamamos de “fryers”, onde eu fritava batatas e nuggets, e montava alguns pratos do cardápio. Era o meu maior medo antes de começar o trabalho, mas no fim eu me dei muito bem nessa posição (menos nos horários de maior movimento, que a pressão era muito grande). Outra função era a chamada “expo”, que era basicamente pegar os tickets que vinham do caixa, gritar para a cozinha o que cada um tinha que fazer e montar as bandejas. Por fim, tinha o “grill”, que foi a única função do restaurante para a qual eu não fui treinada. Quem ficava nessa posição tinha que preparar os hambúrgueres e alguns sanduíches mais elaborados que passavam pelo grill.
  • COLD STATION: também é uma posição dentro da cozinha, mas ficava em um local “separado”. Na cold station nós preparávamos os sanduíches frios (de peito de peru e de atum), as saladas e os cafés especiais. Nessa posição também acabávamos tendo muita interação com os guests, pois ficávamos bem “expostos” e todo mundo ia lá para tirar dúvidas.
  • RUNNING: apesar de ser um fast food, nós levávamos a comida até a mesa para os guests. Quem fazia isso era quem estivesse na posição “running”. Nós tínhamos um pager “mágico” que nos mostrava em que mesa os guests de um determinado pedido estavam. Então, quando a bandeja ficava pronta, o trabalho do runner era levar até a mesa certa.
  • DINNING ROOM: a dinning room é o espaço onde ficam as mesas para os guests sentarem e comerem, além dos condimentos e das bebidas “de máquina”. Para mim essa era a posição mais tranquila (chegando a ficar entediante quando não tinha muito movimento). Resumidamente, tínhamos que manter tudo estocado e organizado. Limpar as mesas quando os guests se levantavam, repor os molhos, o chocolate quente, refazer o café comum, tirar o lixo e ajudar os guests sempre que precisavam.

Como era minha rotina de trabalho na Disney

Eu geralmente era escalada para trabalhar 6 vezes por semana, com uma média de 42 horas de trabalho. Os horários não eram fixos, podendo variar todos os dias. Meus shifts eram sempre noturnos (só durante o treinamento que trabalhei de manhã algumas vezes), o que significa que eu estava quase sempre no closing, ou seja, fechando o restaurante. Para fechar, tínhamos que deixar tudo limpinho e pronto para o dia seguinte. Era a parte mais chata, mas nenhum bicho de sete cabeças.

No geral, meu horário começava sempre entre 15 e 16h30, e terminava entre 22h e 00h45. Em alguns locais da Disney os cast members “batem o ponto” em um computador e ali mesmo recebem a posição para a qual devem ir. No meu caso, nós batíamos o ponto em uma máquina específica e tínhamos que procurar a coordenadora do dia para descobrir para onde deveríamos ir, e ao longo do dia ela ia nos mudando de posição.

Meus shifts extras

trabalho na disney icp

Quando você se torna um cast member, você ganha acesso a um sistema onde você consegue, dentre outras coisas, pegar horas extras em locais de trabalho diferentes dentro da Disney, desde que você tenha o treinamento exigido (ou que o trabalho não exija nenhum treinamento específico).

Eu peguei 4 extras durante o programa: 3 no Animal Kingdom e 1 no Magic Kingdom, e todos foram incríveis! É preciso entender que os extras geralmente são mais fáceis do que o trabalho na nossa própria work location, pois eles acabam nos colocando nas funções mais fáceis. Meus trabalhos foram:

  • Harambe Fruit Market: trabalhei em uma barraquinha de frutas que também vende milho e pretzels na área da África no AK, e foi um dos melhores shifts do meu ICP inteiro! Eu ficava dentro da barraquinha só perguntando se alguém da fila queria pretzels e entregando para quem queria. Foi um trabalho muito tranquilo, eu encontrei vários brasileiros e passei o dia todo ouvindo música e dançando. Foi maravilhoso!
  • Quick Outdoor no AK: quando eu fiquei sabendo que seria quick eu torci muito para cair como outdoor no AK, e como não consegui, eu coloquei como meta fazer pelo menos um shift lá, e também foi maravilhoso! Eu trabalhei em um carrinho de sorvete e bebidas, e meu trabalho era só entregar os pedidos das pessoas. Também encontrei muitos brasileiros e dancei muito nesse dia, foi bem divertido!
  • PAC no Rivers of Lights: o Rivers of Lights é um show de projeções na água bem lindinho que tem no Animal Kingdom, e meu trabalho nesse dia foi ficar estacionando carrinhos de bebê. Não foi um shift muito divertido, mas foi muito fácil e durou só três horinhas (e ainda pude trabalhar com uma amiga nesse dia!).
  • PAC no Magic Kingdom: outro shift que eu queria muito fazer era o de PAC no Magic Kingdom. O trabalho é ajudar a organizar o show de fogos que acontece na frente do castelo, indicando onde as pessoas podem ficar paradas e onde são os locais de passagem. Esse shift foi uma loucura e um dia vou escrever sobre ele, mas também foi um dos melhores que eu fiz! Passei horas dançando com criancinhas muito fofas, me divertindo horrores e ainda assisti o show especial de ano novo. Saudades desse dia!

trabalhar na disney magic kingdom

Trabalho na Disney: um mar de rosas ou um pesadelo?

Achei relevante colocar esse tópico porque já vi muita gente falando coisas horríveis sobre o trabalho na Disney e inclusive durante o trabalho encontrei brasileiros que me perguntaram se era “tão ruim como falam”. Ao mesmo tempo, já vi pessoas contando sobre o programa como se fosse perfeito e muito fácil. Na minha opinião e pela minha experiência, os dois extremos estão errados, mas o meu saldo foi muito positivo. Posso dizer que minha experiência foi incrível e eu fui muito sortuda no ICP!

Mas é claro que aqui estou falando da minha experiência pessoal, e que outras pessoas podem ter vivido um programa totalmente diferente. Tem gente que detesta tanto que pede para ir embora antes do tempo e tem gente que ama tanto que sofre muito quando volta para o Brasil. Tem gente que acaba trabalhando com pessoas ruins ou tendo experiências ruins com os guests, enquanto outras dão mais sorte. Mas uma certeza é que o ICP de ninguém é 100% bom ou 100% ruim.

Minha experiência com os superiores e colegas de trabalho

Meus coordenadores e meus líderes eram pessoas incríveis, que sempre elogiavam um bom trabalho e não nos colocavam para baixo quando fazíamos algo de errado. Se eu falava que não me sentia bem em determinada posição, eles faziam o possível para não me colocar nela ou não me deixar lá por muito tempo. Se eu precisava de ajuda ou não sabia fazer alguma coisa, ninguém me criticava nem fazia com que eu me sentisse mal por isso.

Além disso, não só os superiores mas meus colegas de trabalho estavam sempre prontos para me ajudar quando eu precisava de algo. Como meu programa foi muito curto, eu passei quase a metade dele em treinamento e mais algumas semanas pós treinamento pedindo ajuda o tempo inteiro para quem já tinha mais experiência.

Claro que existem exceções, mas fico muito feliz por ter trabalhado com as pessoas que trabalhei. Eu me sentia acolhida e incentivada a fazer sempre o meu melhor. Eu dava o meu máximo para fazer um bom trabalho e não tinha medo de errar enquanto tentava acertar.

Mesmo as pessoas que não eram as mais legais do mundo comigo, sempre me respeitaram e ninguém nunca me tratou mal lá. Eu demorei muito a me aproximar das pessoas por motivos pessoais, mas no fim fiz amizades incríveis e aprendi muito com cada cast member daquele lugar. Nunca sofri preconceito por ser brasileira, até porque a grande maioria das pessoas lá também eram estrangeiras — incluindo meus superiores.

Infelizmente, sei que nem todo mundo teve uma boa experiência como a minha. Tenho amigas que tiveram péssimos líderes, que nunca reconheciam um bom trabalho e estavam sempre prontos para apontar os erros, que nunca ajudavam quando elas precisavam e fizeram com que elas odiassem o lugar onde trabalhavam. Então, no fim, é preciso ter sorte para cruzar com bons profissionais no seu caminho (mas acredito que seja assim em qualquer empresa, certo?).

Minha experiência com os guests durante o trabalho

Caso alguém ainda não tenha entendido, “guests” são as pessoas que estão na Disney a passeio, os nossos “convidados”. Eu era apaixonada pelos meus guests, pois eles eram todos muito educados e simpáticos. Essa era uma das grandes vantagens de se trabalhar em resort — era mil vezes mais fácil lidar com os guests, já que eles não estavam mais com pressa de comer rápido para aproveitar os parques.

Eu tenho ótimas lembranças, de pessoas sorridentes e felizes, que me faziam feliz por estar ali. Pessoas que puxavam papo quando viam que eu era brasileira e achavam isso incrível, pessoas que me agradeciam por eu estar ali fazendo meu trabalho, que diziam “você é a melhor!” só porque eu dei uma informação ou mostrei onde estava alguma coisa que eles não estavam encontrando. Eu amava quando encontrava algum guest por vários dias seguidos e eles se lembravam de mim e me chamavam pelo nome sem precisar olhar minha nametag.

No meu último dia de trabalho uma guest pediu para tirar uma foto comigo porque ela estava tirando fotos com pessoas especiais, e ela me achou especial porque nos encontramos por alguns dias e eu sempre desejava feliz aniversário — porque ela usava um pin de aniversário todos os dias, já que era a viagem de comemoração dela.

Claro que tive alguns guests indiferentes e até alguns que foram rudes comigo, mas esses eu posso contar nos dedos de uma mão quantos foram (me lembro de 3, para ser mais exata). Mas como eu disse, eu fui uma pessoa muito sortuda e nem todo mundo tinha guests fáceis de lidar. Acho que quem trabalha em parque acaba sofrendo um pouco mais com isso, pois as pessoas estão com pressa, cansadas de filas e não querem perder muito tempo nos restaurantes, então pode ser um pouco mais difícil de interagir e ter momentos memoráveis — mas é claro que eles também vão existir, tudo vai depender da sua vontade de criá-los!

Existe magia Disney durante o trabalho?

É preciso ter consciência de que quem vai para a Disney a trabalho está indo criar a magia, e isso não significa que seu trabalho vai ser mágico o tempo todo. Eu falava que muitas vezes nem parecia que estava trabalhando na Disney, já que estava dentro de uma cozinha de um restaurante de um hotel — nada perto da magia de quem trabalhava nos parques vendo os fogos ou os personagens todos os dias, né?

Quando eu estava em alguma posição sem contato com os guests realmente era zero mágico. Era como se eu estivesse trabalhando em um McDonalds ou em qualquer outro restaurante (não estou dizendo que isso é ruim, só que não é “mágico”, tá?). O trabalho era muito pesado, eu lidava com temperaturas muito quentes ou muito frias, carregava muito peso, ficava o tempo todo em pé, tinha que limpar muita coisa, lidar com coisas nojentas (tipo resto de comida e lixo) e não era nada fácil.

Mas era incrível que quando eu estava interagindo com os guests tudo mudava. Eu sempre fui uma pessoa mais na minha e nunca havia trabalhado diretamente com atendimento ao público. Tive muito medo de ficar cara a cara com as pessoas e não sabia se conseguiria fazer um bom trabalho. Mas era só eu ver um guest na minha frente que meu sorriso se abria automaticamente e era muito natural tratá-lo com muita gentileza e fazer mais do que o esperado para que ele tivesse uma boa experiência. Tudo isso faz parte dos valores da empresa e existe alguma magia que faz com que (quase) todo mundo esteja na sua melhor versão durante o trabalho.

Para mim existia magia durante o trabalho quando um guest era gentil, quando me elogiavam por algo simples que eu fiz, quando uma criancinha puxava assunto comigo, quando eu parabenizava alguém que estava fazendo aniversário, quando chamava uma menininha de princesa ou quando via a Branca de Neve no backstage e ela me dava um oizinho. São coisas bobas, mas que fazem toda a diferença e é quando você se dá conta de que realmente está trabalhando na Disney.

Meu trabalho na Disney foi uma da experiências mais loucas e incríveis que já vivi! Sou muito grata por tudo que o universo me deu, mesmo tendo tido um trabalho totalmente diferente de tudo o que eu sonhei por anos. Foi maravilhoso, principalmente porque eu fui de coração aberto! E é isso que eu indico para quem quer trabalhar na Disney: vá de coração aberto e faça o seu melhor para fazer a diferença na vida das outras pessoas!

Dicionário de expressões do ICP

  • work location: local de trabalho;
  • guests: é como a Disney chama seus visitantes. Guest significa “convidado”;
  • shifts: são como chamamos os turnos de trabalho;
  • cast members: é como a Disney chama seus funcionários, os “membros do elenco”;
  • backstage: bastidores;
  • nametag: crachá;

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Débora, 24 anos, apaixonada por viagens e fotografia. Quanto mais eu viajo, mais eu quero viajar. Quanto mais eu conheço o mundo, mais eu me apaixono por ele...

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